Primeiro veio o barulho, depois o vôo, daí ficou escuro de repente, e o escuro era bom.  Dentro do abraço de um bicho peludo maravilhoso, eu dormindo na rede com a minha mãe do mesmo jeito que a gente fazia quando eu era pequena. Um ser pré-histórico que respira pelas membranas, fora da água tinha o próprio calor que entrava na minha barriga vindo do sol, e do asfalto que esquentava meu ombro no lado das costas me seguram pela espinha pra eu sentir mais proteção.

Percebi quando chegaram as pessoas que diziam coisas incompreensíveis e desimportantes na angústia de ter que resolver a parte prática inesperada da vida ao encontrar uma atropelada na rua, meu Deus do céu, em plenas onze da manhã. Mas eu, eu era a pessoa mais feliz da quadra sem conseguir falar nem um ai. Nos momentos importantes a boca ensina que ninguém deve se abrir pra nada além do essencial, e agora não é hora pras bobagens. Vou ficar aqui parada até entender o que está acontecendo, decidi na minha cabeça que tinha muito poucos pensamentos dentro, e foi aí que não lembro bem, mas sei que o meu corpo ficou ali, muito confortavelmente instalado, enquanto eu ia pra outro lugar.

Abri os olhos uns cinco minutos depois. A motorista correu na minha direção. Alguém tinha tirado minha bicicleta da rua e estacionado perto de uma árvore. Apareceu uma médica que examinou minha coluna e cabeça, você fez um traumatismo craniano, ela disse, preste atenção porque nos próximos dois dias você pode dormir e não acordar. Em casos assim é possível entrar em coma durante o sono e sabe-se lá quando a gente volta.

Não entrei em coma e gostei muito da sensação de passeio por algum lugar inesperado. O acidente tem oito meses, e eu continuo pedalando. Mas comprei um capacete roxo, com uma luzinha vermelha que pisca atrás.