Assim eu me senti quando fui atropelada de bicicleta

Primeiro veio o barulho, depois o vôo, daí ficou escuro de repente, e o escuro era bom.  Dentro do abraço de um bicho peludo maravilhoso, eu dormindo na rede com a minha mãe do mesmo jeito que a gente fazia quando eu era pequena. Um ser pré-histórico que respira pelas membranas, fora da água tinha o próprio calor que entrava na minha barriga vindo do sol, e do asfalto que esquentava meu ombro no lado das costas me seguram pela espinha pra eu sentir mais proteção.

Percebi quando chegaram as pessoas que diziam coisas incompreensíveis e desimportantes na angústia de ter que resolver a parte prática inesperada da vida ao encontrar uma atropelada na rua, meu Deus do céu, em plenas onze da manhã. Mas eu, eu era a pessoa mais feliz da quadra sem conseguir falar nem um ai. Nos momentos importantes a boca ensina que ninguém deve se abrir pra nada além do essencial, e agora não é hora pras bobagens. Vou ficar aqui parada até entender o que está acontecendo, decidi na minha cabeça que tinha muito poucos pensamentos dentro, e foi aí que não lembro bem, mas sei que o meu corpo ficou ali, muito confortavelmente instalado, enquanto eu ia pra outro lugar.

Abri os olhos uns cinco minutos depois. A motorista correu na minha direção. Alguém tinha tirado minha bicicleta da rua e estacionado perto de uma árvore. Apareceu uma médica que examinou minha coluna e cabeça, você fez um traumatismo craniano, ela disse, preste atenção porque nos próximos dois dias você pode dormir e não acordar. Em casos assim é possível entrar em coma durante o sono e sabe-se lá quando a gente volta.

Não entrei em coma e gostei muito da sensação de passeio por algum lugar inesperado. O acidente tem oito meses, e eu continuo pedalando. Mas comprei um capacete roxo, com uma luzinha vermelha que pisca atrás.

Entre sem bater

Cometas em chamas, meteoros atravessando a atmosfera terrestre e acidentes aéreos são fenômenos diferentes, mas na noite do céu eles são todos iguais. Estrela cadente. Cada uma é um satélite em colapso (meu amor), então todo pedido que eu faço no escuro já vem queimando numa máquina ou num astro a segundos de não existir mais.

Peço noites de sonho bom e dias de cavalo selvagem. Sonos tranquilos e manhãs sem focinheira. Peço pra arrancar minha ferradura com o dente e correr em direção ao final desse ano, longe, até a beira do precipício onde vamos apoiar nossas patinhas. 2017 na última fronteira de nós.

Peço por você e por mim, em pedidos para o Deus estelar das estações espaciais explodidas e das aeronaves assassinas. Formulo os meus desejos de uma liberdade eqüina para as partículas galácticas incendiárias que logo, quem sabe, vão nos extinguir que nem aconteceu com os dinossauros.

Que liberdade só é boa assim, quando risca no céu e apaga tudo aquilo que já não cabe.

Seja bem-vindo a este blog.