Manual de mergulho

Acordei com saudade de neve e de outras coisas que eu não conheço direito. Neste apartamento que fica a cinco mil quilômetros de distância do seu tem minha perna ocupando a cama, o lado de fora da janela funcionando, e eu fecho o olho enquanto estico o músculo da coxa. Sola do pé tornozelo tendão tíbia joelho fêmur nadadeira de uma baleia azul que cruza pelo ombro esquerdo, água salgada

a minha língua nas suas vias lacrimais.

 

“Manual de Mergulho” foi publicado em Novena para pecar em paz (Penalux, Rio de Janeiro, 2017), uma coletânea de contos inéditos de autoras contemporâneas de Brasília.

Você encontra o livro no site da editora Penalux.

Querido R. 

“Querido R.,

Escreva uma  declaração de amor pra mim num papel bem pequeno, depois dobre muitas vezes e amarre num barbante da cor que você escolher.

Diga o que quiser, desde que seja verdade. Pode ser o que ficou guardado por anos, o seu rancor escondido.  Grite também, se quiser gritar em maiúsculas, em caixa-alta. Ou fale baixinho, numa voz rouca, aquilo que você nunca teve coragem de me dizer, o seu segredo mais bem guardado, a sua vergonha velada. Deixa eu encostar na sua voz distante quilômetros de distância como quem tira a sua calça devagar, a sua boca encostando na parte interna da minha escápula uma letra de cada vez.”

O texto-carta de amor “Querido R.” foi publicado na edição n. 4 da revista Zzzumbido (Out./2017).

Você pode baixar o pdf da revista com a íntegra do texto aqui: zzzumbido_04.

 

 Para minha avó

A casa ficou em silêncio. O calor fez morrer o vento, o pulso do ar, e eu respirei fundo. Nós duas no quarto, do mesmo jeito que a gente fazia há trinta e cinco anos. O barulhinho de respiração de uma pessoa só.

Dentro de mim tem a minha mãe, dentro dela, você, e dentro de você a família inteira. A vida continua, a menina que eu fui agora vai se enterrando junto com as testemunhas que já não são mais. Aquele porta-retrato com minha foto aos dois anos, que você deixava na cômoda da sala, eu coloquei na mochila sem ninguém ver quando saí da sua casa pela última vez.

Você não virou estrela no céu, vó, porque viveu pra ser constelação.
Para minha vó é uma das cartas que escrevi pra mim mesma no projeto Letters from the Inside: um diário aberto, bilíngue, com textos e ilustrações publicados semanalmente ao longo de 2016.

Letters foi um experimento artístico em tempo real. Produzi os textos e desenhos a partir de experiências dolorosas que pareciam intermináveis naquele ano, e ao produzir eu investigava se seria possível transcender a dor escrevendo e desenhando. Ao longo do projeto foram surgindo imagens de mulheres sem cabeça, que se tornaram a representação mais consistente da minha experiência.

O último post foi publicado no dia 31 de dezembro,  O ano acabou e o diário permanece, em inglês e português, como registro da travessia:  www.lettersfromtheinside.com