‘Peixes’ – gouache e nanquim no papel preto; agosto/2017

Comecei a mexer com o princípio escuro há uns seis meses e por motivos muito pouco nobres. Minha casa pequenininha estava tomada por uma tonelada de papel preto 140g – umas folhas enormes, 66X96cm, que tinham sobrado do meu experimento com serigrafia para ‘O amor não é matemático’. Todos os amigos artistas que marcavam de passar aqui pra levar os papéis embora, como doação, furavam sem avisar, e eu ia ficando cada vez mais puta. Numa sexta à noite fiz chá, coloquei o For Now I Am Winter pra tocar, dissolvi as cores primárias de gouache em água e estendi três folhas em cima da mesa pra ver o que acontecia.

Caminhar na sombra e ir inventando a forma no vazio era uma boa idéia. O mês era janeiro e 2017 começava horrível, me atravessando a garganta numa sensação de sufocamento. Depois de um ano em Brasília, aparecia essa minha vontade incontrolável de qualquer coisa que fosse selvagem – deixar tudo pra trás e procurar um outro país, conhecer alguém pra me tirar o chão e todas todas as formas possíveis de estabilidade, morder um estranho só pra gente se conhecer sem esquadros. Abandonar a obviedade consensual da folha branca e entrar no túnel do papel preto sozinha era um jeito secreto de trocar a prisão do mundo conhecido e de seus habitantes por viagens pelo espaço sideral.

Então as minhas gouaches encontraram o papel escuro pela primeira vez, e na mesma hora eu entendi que todo o meu projeto era bobagem. Experimentar com papel preto não era nada daquilo que eu tinha imaginado.

O que as guaches me explicaram foi que o papel branco sempre me machucou sem eu saber. A folha branca é um dia de domingo me chamando pra aproveitar alguma coisa que eu não sei bem o que é, em piqueniques cheios de gente com quem eu nunca sei direito o que conversar. Desenhar no espaço sem luz, não – é como tomar chá e ouvir Olafor Arnalds em casa sozinha, de noite, ou mergulhar junto com baleias no fundo do mar. Desenhar no papel preto é voltar pra casa.