Halley

Quando o cometa Halley passou pelo céu era 1986 (acho), e minha mãe tentou colocar nós dois, meu irmão e eu, pra assistir a visita dele pelo céu da madrugada. Papai comprou binóculos enormes, mas pode ser que já os tivesse porque desde sempre adorou os objetos óticos com lentes, os mapas-múndi, os canivetes e as câmeras fotográficas.

Naquela noite nós quatro ficamos no quarto até tarde, olho esticado de quem precisa continuar acordado. No fim das contas, dormi junto com meu irmão na cama deles, e nenhum de nós dois conseguiu acordar pra ver o cometa chegando.

Não foi um grande espetáculo, “nem deu pra ver direito” (eles disseram)

mas pensando bem nada antes ou depois foi tão bom quanto a noite em que nós ficamos juntos esperando o tempo passar.

Hoje quis que a vinda de outro cometa fosse anunciada. Que eu perdesse o rastro dele, do mesmo jeito que naquele dia, em mais uma de suas passagens pelo nosso sistema solar

: quando foi, mesmo, que a gente desistiu dos eventos celestes?

“Halley” foi publicado na edição final da revista Zzzumbido (Out./2018).

Você pode baixar o pdf da revista com a íntegra do texto aqui: Revista Zzzumbido edição final

 

OUTROS TEXTOS:

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