Manual de Mergulho

#1. Cama

Acordei com saudade de neve e de outras coisas que eu não conheço direito. Da Islândia, de animais marinhos e da nadadeira de uma baleia azul. Dos bancos de madeira de uma igreja da Alemanha central, do inverno no círculo polar ártico, e acordei com saudade da temperatura do seu corpo ter sido tão quente naqueles dias em que me faltava o sangue e a calefação.

As noites em Brasília são um pouco como o seu braço, a não ser pela falta de contraste entre extremos meteorológicos. A temperatura aqui não muda, e sem você habito estável os trinta e seis graus. A parte de mim que vive à noite arranca camiseta e calcinha sem eu saber, então abro o primeiro olho do dia pra me descobrir no vazio de roupa, coxa solta, perna grossa ocupando o colchão em começo de manhã misturado com resto de madrugada.

Acordei com saudade de umas coisas que não têm nome, e olhando um pouco melhor concluo, a título provisório e muito pouco estatístico, que pode ser a lacuna de não conseguir sonhar. Vivo mundos inteiros pra despertar assim, entendendo nada, então fica essa vontade. Pelada, no calor, me abraçam as jubartes todas do mundo no meu colchão minúsculo tomado por coxas grandes demais. Aqui só cabe a minha perna. Essa cama foi feita pra mais ninguém.

 

#2. Quarto

Deitada e sozinha, em perfeita segurança. A área maior do meu corpo em descanso que encosta no chão. Cabeça pescoço espinha os tecidos invisíveis movimentos peristálticos glândulas nervos parassimpáticos que se mexem sem eu saber, (vem), só hoje, que achei melhor não resistir às forças da gravitação universal. Vem, que eu preciso te contar qualquer coisa desarrumada que não sirva pra coisa nenhuma. Te falar de uma lógica muito pouco discutida que eu inventei sobre as terças-feiras de manhã. Assim: quando o meu corpo fica é porque eu não deveria levantar. Na minha teoria, portanto, aquilo que termina vestindo a roupa pra sair pela porta a caminho do trabalho será alguém que não eu. Aquela que não me é, inteira, num uníssono

: vai, caminha.

Acordei com saudade de neve e de outras coisas que eu não conheço direito. Da sua voz, que eu queria poder lembrar mais uma vez. Neste apartamento que fica a cinco mil quilômetros de distância do seu tem minha perna ocupando a cama, o lado de fora da janela funcionando sem a mínima razão, e eu fecho o olho enquanto estico o músculo da coxa. Sola do pé tornozelo tendão tíbia joelho fêmur nadadeira de uma baleia azul que cruza pelo ombro esquerdo, água salgada

a minha língua nas suas vias lacrimais.

Correntes marinhas geladas, algas e peixes com antenas, Eu, em mergulho cetáceo.  No caminho de volta pra casa.

 

#3. Oceano

Aqui, meu amor, no lugar onde você me encontra e eu encontro você.  Em fossas abissais e nos bichos oceânicos que cientista nenhum desse mundo quer registrar entender classificar reproduzir (Nós), porque aquilo que não contribui de um jeito pragmático para compreender a dinâmica de vida das espécies importa muito pouco para a pesquisa científica, em termos gerais. A verdade é que somos mais um objeto de curiosidade do que de adaptação real. Sem enxergar direito, no aqui da luz que falta, das antenas e da pressão atmosférica altíssima explodindo cabeças, faço nossos pedidos sonhos planos projetos resoluções de ano novo para os deuses que regem as colunas de ar assassinas num cosmos virado do lado contrário. Fomos feitos exclusivamente para a galáxia subterrânea com gravidade que proíbe a flutuação dos astronautas, aborta o vôo das espaçonaves e o dos passarinhos, e torna inútil, principalmente, a segurança das roupas de proteção.

Se eu parar de resistir à lei da gravidade, você acha que um dia a gente chega até o fundo do mar?

 

#4. Casa

Você não quis levantar cedo, por isso foi sozinha que eu enxerguei o chão branquinho do lado de fora de casa pela primeira vez. Ninguém caminhava na manhã do solstício de inverno em Marburg. Come back to bed, baby, I want to ask you a question, mas então a neve era maior que nós dois e eu só podia responder que não sabia quando tinha começado, que estava acontecendo aos poucos, uma queda livre em traje de banho me atravessando numa porta depois da outra depois de outra porta depois de. Você ficou. Eu preferi ser passageira nessa espaçonave que nunca termina a viagem.

Hoje acordei com saudade de neve e de outras coisas que eu não conheço. De você, do nosso planeta distante remotamente habitado, da sua mão embaixo, dentro de. We found ourselves in different sides of a line nobody drew do Cohen encostandona minha bochecha com as costas da mão – e eu, eu gosto de olhar o gelo derretendo dentro do copo d’água, as nadadeiras das baleias francas que só se reproduzem no hemisfério sul, meu corpo sem roupa, a cama vazia e todas as verdades, todas elas, que levantar desse colchão vai esquecer.

Eu, que escuto a sua voz a um continente de distância dizendo que oceanos como os meus são terríveis só porque não terminam mais. Eu, que escolhi mergulhar sozinha, cada vez mais longe da superfície já é o mesmo que infinito, na direção das funduras invisíveis que juntos a gente nunca conseguiu alcançar.

Pode até ser, meu amor, que esta manhã seja o dia marcado pra eu esquecer de uma vez o caminho de volta.

Uma astronauta solta de propósito a cordinha no espaço.

Hoje vou ficar dormindo até mais tarde.

 

 

“Manual de Mergulho” publicado em Novena para pecar em paz (Penalux, Rio de Janeiro, 2017), uma coletânea de contos inéditos de autoras contemporâneas de Brasília.

Para comprar  você encontra o livro no site da editora Penalux.

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